NARCOLEPSIA


(É só para lembrar,pois todo mundo já sabe o significado,então: Narcolepsia é um distúrbio do sono que causa sonolência excessiva.)

- Vou te pedir um favor.
- Fala, coração.
- Pra começar, tenho nome, odeio essa coisa de " docinho, amor, benzinho".
- Não sabia, desculpe.
- Agora, já sabe.
- Não vou dar mais apelidos carinhosos mas, depois, não reclama.
- Se eu quiser reclamar, reclamo, sim.
- Credo, que bicho te mordeu? Acordou do lado errado da cama?
- Acordei com dois pés esquerdos e não enche o saco que eu nem tenho.
- Qual é? Tá de TPM?
- Tô, mas é Tensão Pós Matrimônio.
- Mas nós não somos casados!
- Exato. 
- Não entendi.
- Parece que estamos casados há séculos!
- E... lá vamos nós. Despeja, vai.
- Tá vendo? É disso que eu estou falando.
- Filha de Deus, me dá uma pista, não tô entendendo nada.
- Não conversamos mais, não namoramos mais, agora tudo é menos.
- Mas não é assim mesmo? Com a relação mais estável, a gente relaxa e acalma.
- Acalma, nada, entra no piloto automático.
- Tá bom, o que você quer?
- Não se trata do que eu quero, não quero nada.
- Peraí, fiquei perdido.
- Novidade.
- O que você quer dizer com isso? Que eu sou sem noção? É isso?
- Tô dizendo que você precisa de um GPS pra te mostrar onde você está!
- Tô aqui, em pé, na cozinha, com você, porra!
- Tá vendo? Você é literal e se irrita com qualquer coisa!
- Para com os rodeios, diz logo qual é. E quem tá irritada é você.
- É você!
- Eu o quê?
- Lembra o que você fez, ontem à noite?
- O que eu fiz?
- Não lembra?
- Pelamordedeus. Eu lembro que cheguei antes de você, tomei banho, liguei a televisão enquanto te esperava, vi um jogo qualquer e você chegou.
- Depois, tô falando de quando eu já estava em casa, não me interessa o que você fez antes, mas depois, DEPOIS!
- Não grita que eu não sou surdo.
- Mas só ouve o que quer.
- Olha só, se você quer me acusar de alguma coisa, fala logo. Não vou ficar tentando acertar a loteria.
- Enquanto EU preparava o jantar, EU dava um jeito na casa, EU servia a mesa, EU lavava a louça, você cochilava no sofá!
- Tava cansado. É crime?
- Cansado do que?
- Cacete, trabalhei o dia inteiro.
- E eu? Ah, é, tinha esquecido, seu trabalho é mais importante do que o meu.
- Isso tudo é porque cochilei?
- Não, isso você faz todo santo dia.
- Isso o que? Cochilar ou essa outra coisa que não sei o que é?
- Essa outra coisa, cochilar só desencadeia o processo.
- Desisto. Ou você desembucha, ou paramos por aqui.
- Paramos o que? A conversa ou a relação?
- Tudo tem que ter dois lados, ou isso ou aquilo? Não dá pra ser mais simples?
 Facilita aí, vai.
- Facilito, sim. Lembra que eu disse que ia te pedir um favor?
- Quando?
- Hoje, agora. Antes de dizer bom dia.
- Você não deu bom dia.
- Pois é, meu bom dia foi "vou te pedir um favor". Na realidade, não vou te pedir nada, vou é dar uma ordem.
- Como disse? Você vai me dar uma o que?
- ORDEM!  Tem mais, ou você acata ou roda.
- Tô com a sensação que vou rodar, porque nem minha mãe me dá ordem. Mas, diga lá, só pra conferir.
- Digo, sim, e preste bastante atenção: quando estiver muito cansado, o que vem acontecendo com frequência, não encoste sua arma engatilhada em mim.
- Tem a ver com transar comigo?
- Tem a ver com transar e você pegar no sono.
- Quer dizer que não posso dormir depois de transar?
- Não pode dormir é DURANTE e EM CIMA de mim!
- Tá bom, eu fico embaixo, assim você não reclama.
- Tem toda razão.
- Não tenho?
- Tem, meu caro. A porta da rua é a serventia da casa. RODA!

24 comentários:

  1. Olá, Boa noite,Paulo
    esse "diálogo", muito bem escrito e com um toque de humor peculiar, acontece muito na convivência,seja em qualquer tipo de relação...pois ela, a convivência, acaba revelando defeitos incômodos do parceiro, ( nesse caso, nem defeito é,mas um distúrbio) o que não é, no entanto, motivo para deixar a relação "rodar"...pois , entendo que as dificuldades associadas à convivência são ocasionais, habitualmente são normais e não são de grande preocupação. No entanto, quando são persistentes e se mantêm até durante o ato em si pode causar bastante frustração, mau-humor e cansaço. e à pessoa que, infelizmente, tem esse distúrbio pode "rodar" mesmo...se não houver, respeito, cumplicidade e companheirismo...
    Obrigado pela participação e visita ao meu blog,bela semana,abraços!

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    1. FELISBERTO JUNIOR,

      você de forma competente pinçou os pontos principais e a reflexão foi excelente!

      Venha sempre e um abração carioca.



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  2. Paulo, sinceramente eu não conhecia esse distúrbio, mas com certeza
    ele deve causar alguns problemas para o portador do mesmo.
    Nesse diálogo, com um toque de humor, o cara ficou em maus lençóis
    tadinho.
    Deixo um bjinho pra ti.

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  3. NÁDIA,

    ficou mesmo!

    Um abração carioca.

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  4. Paulo, meu amigo, que maravilha de texto!
    Essa é a "tradução" mais fidedigna e perfeita da famosa e propalada guerra dos sexos. Parecia até que eu estava vendo uma cena com meu marido aqui em casa, rsrs. Embora, lógico, ele não sofra da tal narcolepsia, mas é igualzinho...
    Parabéns! Você é um humorista nato e muito bem articulado. Te agradeço pela visita e pelas pelos elogios que...nossa, eu não mereço!
    Beijos, amigo! Um lindo fim de semana!!!

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    1. VANUZA,

      sua generosidade e acima da média!

      Muito obrigado.

      Um abração carioca.

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  5. Ops! Esses "pelas e pelos..." ficou super esquisito, mas como tudo aqui é engraçado, valeu, né?Bjs

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    1. Lógico que valeu VANUZA!

      um abração carioca.

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  6. Bom dia, Paulo
    que maravilha o seu diálogo.Seus personagens nos deram uma aula de convivência.
    Faltou o diálogo entre os dois, os mais interessados em viver sob o mesmo teto.Parabéns pelo texto bem articulado,nos mostrando com graça um problema que está presente entre nós. Tenha um lindo domingo! Beijos!

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    1. MARLI,

      obrigado e você acertou realmente, em ter valorizado o que o texto tenta passar, uma "aula de convivência".

      Um abração carioca e fique com Deus.

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  7. Ola Paulo, problemas de convivência, ou distúrbios? São difíceis de ser identificados pois a maioria das pessoas não tem mais é paciência para entender o seu parceiro. Acho mesmo que a ilusão do desconhecido é que encanta e assim que percebe-se que o outro tem chulé, solta pum ou não abaixa a tampa do vaso a relação vai para o esgoto mesmo. E vamos combinar que chegar em casa e encontrar seu "amor" bem acomodado e voce ter que fazer jantar, levar o lixo e ainda lavar a louça é um pouco demais para qualquer cristão.
    O companheirismo anda muito distante de qualquer relação, infelizmente.
    Queria te comunicar que mencionei seu blog para o selo de EXCELENCE Paulo. Vai lá buscar seu selinho faz favor.
    Abraços amigo.
    att. Guerreira Xue
    http://escritoressemfronteiras2.blogspot.com.br/2014/08/el-blog-de-estela-caruso-cuentos.html

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    1. GUERREIRA XUE,

      grandes verdades ditas aqui, por você ,com a simplicidade dos justos e sabedoria dos competentes.

      Talvez se um destes intelectuais mais "convencidos" quisesse dizer isto que falou exprimiu com uma linearidade de clareza tão grande, certamente não conseguiria.

      Assino em baixo!

      E no mais, sua generosidade e atenção já são minhas velhas conhecidas.

      Vou lá apanhar sim, e muito,obrigado ,mesmo!

      Um abração carioca.

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  8. Caramba... Sabia desse distúrbio, mas não sabia que era a qualquer hora.
    Quanto ao relacionamento, se não são casados ou se apenas namoram, se a mulher mora sozinha, não teria que fazer tudo também sozinha? Melhor não namorar em casa!
    Beijus,

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    1. LUMA,

      o pior é que não tem hora mesmo!

      Espero que seu raciocínio sobre fazer tudo sozinha também, seja um ensinamento positivo para todos e não ter outros entendimentos , menos nobres.

      Se é que me fiz entender!

      Um abração carioca.

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  9. Me parece que é o mais vulgar de acontecer entre casais novos ou menos novos!
    O stress do dia, a muita confiança e o desabafar para alguém, da monotonia da vida a dois!

    É usual.! Agora, muitos acabam em separação e divorcio. Parece que se usa!
    E só se reconhece a falta do outro e suas qualidades, se um deles morre.
    E aí se chora o tempo perdido numa vida tão curta e o arrependimento dos últimos tempos.

    Se de repente o morto,tivesse a possibilidade de ressuscitar, havia choros e muita alegria e depois, voltava ao mesmo! Se depreciavam e quase se matavam com os defeitos encontros um no outro!

    É assim a vida e as pessoas que vivem esta vida, mas o texto está muito bem escrito e tem muita verdade!

    Maria luísa

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    1. MARIA LUISA,

      um enfoque ainda não abordado,por aqui!

      Um abração carioca.

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  10. Ressalvo "encontrados, em vez de encontros". Peço desculpa!

    maria luísa

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    1. MARIA LUISA.

      Sem dúvida,plenamente entendido!

      Um abração carioca.

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  11. Boa tarde Paulo.
    A convivência é muito difícil.E o homem deixa muito á desejar.
    Mas nada como um bom dialogo,para tentar concertar.
    Lindíssimo texto! Simplesmente maravilhoso!!
    Você esta de parabéns.
    Beijinhos.

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  12. NELMA,

    a dificuldade do relacionamento está nas tentativas enfadonhas de um ou do outro, não permitirem que seja possível o dialogo.

    Diálogo é respeito!

    Um abração carioca.

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  13. Querido Paulo, em duas etapas para ficar de bom entendimento:
    ** esse distúrbio não é de percepção na maioria das vezes pelos pacientes, comparando com quem tem um hálito forte, a pessoa acaba por acostumar e o mesmo se dá com a apnéia (roncar) - ambos tem tratamento e no ambulatório do HC em SP realiza-se triagem de caso para caso e um dos exames que faz parte é a Polissonografia.
    **** que bate boca danado hen! mas é isso mesmo que acontece nos atuais relacionamentos, a cobrança acontece não da forma que se pensa demonstrar o amor/paixão que se tem pelo parceiro; é muito mais fácil usar de ignorância para se ter resultados rápidos. Quando não se sabe "ceder" também não se sabe buscar solução.
    Desculpe ter me estendido, mas acho que temos algo em incomum, rsss o teclado atrai as ideias.

    Abração Paulista
    Nicinha

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    1. PERSEVERANÇA,

      valeu pela aula, pela atenção costumeira e sua generosidade.

      Obrigado, mesmo,ok?

      Um abração carioca,Nicinha!

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  14. Paulo,
    1- Meu caro e mais novo amigo, ter a sua amizade e tê-lo como seguido do meu humilde blog, deixa-me honrada e lisonjeada. Grata pelo generoso comentáro alusivo ao meu singelo poema.

    Concordo com o pensamento do Rubens Alves, já imaginou voltarmos aos anos 60 e sentirmos as mudanças? Não no acostumaríamos mais a viver a involução do tempo ido. A felicidade é algo momentâneo que pode durar ou não, creio que ser feliz é aceitar a própria realidade.

    2- Do seu texto: Já passei por inúmeras situações de difícil solução, mas de todas elas, a pior foi a convivência a dois, duas cabeças, dois mundos, um querendo que o outro pense igual, e aí vem as discórdias, o que é natural na vida de um casal, e a nível de hoje a tolerância e (0) Narraste um bate- boca com a cara da realidade dos casais.
    Resumindo, me vi inserida no seu texto por inteira!!!

    PS:
    Sua leitura encheu minha página de rastros de luz!
    Desejo um findi azul cheinho de cositas boas!

    Bjs de luz!

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  15. Que delícia conhecer o teu blog Paulo!! e adorei o texto. Quem nunca passou por uma DR como essa né kkk

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